A vida não pode ser só isso


Em memória dos que partiram.
E foram partidos pela Arte.
Como nós.

Roda de samba no portão de casa. Martinho da Vila, Cartola, Adoniran Barbosa. Almoçar no Sesc da vila com o meu nome ao lado da Ariana Lackshmi. Prato: arroz, feijão, cuscuz e frango. Um refrigerante para nós duas? Aprender a escrever Lackshmi sem olhar nos contatos. Vamos sentar naquela mesa para apreciar a piscina. Recarregar Bilhete Único. Desenvolver um olhar atento para a arte pós-moderna. Terça: Ir ao inglês. Curso de francês? Sozinha. Estudar. Transar com alguém mais inteligente que eu. Comprar creme para depilação. Perder um grande amigo. Jabuticaba. O que vestir para ir à Ópera? Encontrar Ariana, Rafael, Daniel e Pedro nas catracas. Ela está linda! Sentar no lugar mais barato. Procurar meu fone de ouvido. Lembrar que o fone ficou com o amigo perdido. Comprar outro. Chorar. Pensar em suicídio. Cair da escada. Esquecer Deus. Acreditar. Abandonar o catolicismo. Lasanha de espinafre. Atriz de novela ou teatro? Teatro! Formar um novo-grande-amigo. Trancar a faculdade. Lágrimas no ombro da Ariana Lackshmi. Ela diz que fui a mulher que mais amou. Amiga. Poesia é a coisa mais importante do mundo. Deixar um bom professor. Biofobia: medo da vida. Chorar me faz ter a certeza que ainda sei sentir. Sinto muito. Dormir com dois travesseiros. Unhas. Arrancar o dente do juízo. Há Paris para nós. E aí, gostosa?! Filme que me destrói. Cortar o cabelo ou deixar crescer? Exposição Feito Por Brasileiros. Bienal. Falar para o rapaz de óculos que eu gosto dele. Admitir. Eu nunca matei uma galinha. Seu rosto está vermelho? Se não estiver não está com vergonha. Atualizar o blog. Tomar calmante natural. Encontrar morangos escondidos na geladeira. Abelha. Alergia. Além de estar limpando ainda tenho que assobiar? Comer o bolo de chocolate que a Barbara ficou de levar no próximo ensaio. MERDA! Teatro. É um curso profissionalizante? Alma! Elogiar bolo. Preparar alguma cena. Cu é lindo – já escreveu Adélia Prado. Gozar. Ir à praia. Conhecer o Felipe. Se eu fumasse estaria fumando agora. Não ser pessimista. Pessoas. Relacionamentos que só aconteceram aqui dentro. Do lado esquerdo. Casais que vejo na rua. Ausência do paterno. É coisa de passarinho. Saudade do seu abraço. Ligar o ventilador. Completar 18 anos. 18 anos sem Renato Russo. Estudar. Impressionar na entrevista. Tráfico de poemas escritos em papel higiênico. Provas. Prazer. Sexo. Utilizar o wi-fi da vizinha só para falar contigo. Vestibular. Emagrecer na semana que vem. Pintar o quarto de vinho-azul-pérola. O azul é uma cor fria que alivia a ansiedade e ajuda a controlar os ataques de atração sexual obsessiva. Não é a cor mais quente. Andar de bicicleta. Ir ao parque com o garoto que eu gosto. Sentir falta do nosso café da manhã no boteco da esquina. Perdão por te abandonar como naquele filme do Noah Baumbach. Dói o ventrículo direito. Viver de Arte ou não viver. Savoir-vivre. Suicídio. Internação voluntária. Escrever que amo meu irmão com tinta preta na parede antes de partir. Mastigar sabonete. Quatro e quarenta e oito. Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares. Minha mente funciona assim:

a o s
        p e d a ç o s .
 n a 
q u e b r a .

Felicidade é sofrer através do sensível. Isso. Você foi a mulher que eu mais amei em toda a minha vida. 

Hoje o céu vai cair


Elisa nos apresentou um dia antes do seu aniversário. Eu lembro que chovia e chovia. Frívolo, sentado quieto, com uma camisa azul cheia de andorinhas e uma calça justinha na cor mostarda. Sua cor favorita vivia na minha geladeira. E falando assim, descontraída que só, até parece poesia. Excêntrico! Limpinho! Tênis desgastado e cadarços da cor do seu cabelo. Vermelho sangue! Ele olhava de canto e sorria. Às vezes, levantava e ajudava na organização da festa que há pouco começaria na casa da Elisa. E eu espiava, de longe, ao lado da estante com um copo de café na mão o homem mais charmoso que eu já havia visto em São Paulo.

Foi simples, Ana. Depois de alguns minutos ele veio e ficou ali parado na minha frente como uma estátua, sem dizer nada, os lábios grudados e um olhar duvidoso. Errado, leve, dramático e artista. Ele era artista, sabia? Fazia teatro, pintava e até tocava clarinete. Gargalhei sem saber o porquê e logo ele começou a falar. Falou tanto, tanto, que até fiquei cansada de o ouvir. Tudo me atraía naquele homem! Suas mãos, os cachos e o bigodinho mal distribuído mais bonito da cidade! Sua visão de mundo, o modo como levava a vida, era tudo tão simples, que aos poucos fui me cegando. 

Você quer saber o porquê eu fui embora de casa, mas eu não sei explicar, Ana. Sei que pisquei e já estava naquele apartamento pequeno, naquela cama grande e no meu novo lar. Minhas roupas empilhadas no guarda-roupa e aquele sutiã vermelho que ganhei de você vivia molhado no banheiro. Geleia de morango, que sempre foi minha favorita, ficava escondidinha no fundo do armário. Mas ele sempre achava e acabava com tudo. Coisa de artista! Acabar com tudo, não deixar nada, nem pra cutucar, lamber, adoçar o céu da boca. Era difícil de lidar, mas eu lidava. E ele, coitado, ele era triste. Não conseguia lidar nem consigo mesmo, mas sabia viver. Diferente de mim.

Veja só! Estou atrasada! Comentei que arranjei um bom emprego graças à ajuda do papai? Depois explico melhor, pois agora não tenho tempo. Você sabe que hoje a louça é por sua conta, né? Vê se encontra uns doces aí na minha bolsa. Ganhei da Rose e esqueci de comer. Pode pegar ou vai estragar. Se for à casa do Fabinho, penteia esse cabelo e leva as meias que ele esqueceu aqui em casa. Só não deixa o amor te comer de quatro.

[...]

Hoje o céu vai cair, então se bater muito forte, vai pra debaixo da mesa e chora.