Eu quero uma pérola


Olha Tereza, terminei com um cara há quase dois meses e só estou escrevendo isso porque hoje ele completa 26 anos. Não foi bem um término já que nunca começamos nada. Acho que ele se assustou quando eu disse que enjoava de gente normal. E ele fumava muito e não tinha uma barba atraente e não era engraçado e eu gosto de gente engraçada. Nos encontramos em um parque e eu desabafei sobre todas as minhas neuras e medos e cismas e raiva de bacon e vontade de transar igual um animal com o Zach Condon e sobre odiar dentista ranzinza. Eu tenho fé que ele se divertiu sendo o meu psicólogo.

Hoje perdida entre as cuecas limpas do meu irmão no chão do quarto, comecei a me entristecer com o abandono e tenho que lembrar que sou fruto de um carnaval. Entrei nesse mundo por acidente e ao descobrir até achei esquisito e vazio, mas depois percebi que as melhores pessoas do mundo vieram de uma gravidez indesejada – eu digo essa frase só para me sentir melhor mesmo.

Então faz um favor, segura essa Barbie que ainda tenho na prateleira e enfia pela minha goela, Tereza. Minha mãe fez questão de me matricular em uma academia qualquer e até agora estou pensando o que Nietzsche, com aquele bigodão underground, acharia disso. Por sorte ainda não comecei a treinar, porém já fui conhecer o ambiente e me senti um peixe fora d'água - será que alguém ali lê Bukowski? Sempre tive certo preconceito com mauricinho musculoso e camisa polo e com aquela gostosa do 123 que só sai de casa com legging estampada. Eu cuspi pra cima, Tereza. E me ferrei!

Ainda hoje após rir de uma piada que minha prima contou sobre loira, fui tomar banho porque minha alma estava doendo. Minhas lágrimas caíam por dois chuveiros. Três. E eu jorrava angústia por todos os lados. Eu dei de querer ser artista, Tereza. Dei de sentir muito. Sinto muito e dói sentir muito. Em seguida, lembrei que era aniversário de um grande amigo e precisava sorrir. Coloquei uma roupa e fui.

Olha Tereza, quando eu digo que fiquei perdida entre as cuecas do meu irmão, estou querendo explicar que mudei de quarto e desmontamos o guarda-roupa dele. Isso significa que minha casa está uma bagunça e vou pintar o meu novo casulo de vinho porque a solidão tem essa cor. E então eu saí do banho e coloquei uma roupa e fui. E depois voltei sangrando e machucada pela tragédia de ver um antigo amor platônico beijando outra garota. Nós cantávamos Los Hermanos juntos e estou acordando assustada todas as noites por causa dos pesadelos. Ontem sonhei que vovô abraçava mamãe e mamãe me abraçava e eu abraçava um fantasma.

Olha Tereza, na semana passada perdemos dois grandes escritores brasileiros. Metade da boa Literatura morreu naquele Rio de Janeiro poético e a outra metade está nas mãos de algum retardado que gosta de Open Bar. É complicado Tereza, mas fica tranquila, você é uma boa personagem. Você gosta de MPB e não lê Paulo Coelho. Eu gosto de fazer você sofrer. Ser feliz está longe do meu ser. Do seu ser. Do nosso.

Olha lá em cima, Tereza. Rubem Alves está pousado em uma nuvem fofinha conversando com Ubaldo sobre o mistério decifrado. Eu lembro quando papai me entregava moedinhas e eu juntava para conseguir comprar um algodão doce cor-de-rosa assim que o velhinho sorridente passava na rua. Eu era feliz e queria crescer, Tereza. Eu era muito feliz! Eu era... Agora eu quero uma pérola. 

Sobre acordar cedo


Não quero viver só com isso, mãe.
Você vai passar fome como artista, criança.
Também vou morrer sendo jornalista, retruquei.
Mas jornalista escreve, ela disse.

Artista também escreve, mãe.
Artista chora muito, menina.
Mas eu já choro muito, falei.
E sabe escrever? Ela disse.

E calei.