O vídeo que restou de nós

(Jacques-Louis David)

Que porra é essa, velho? Estou filmando você! Ah, para com isso. Não, fala alguma coisa pra câmera! Oi! Diz o seu nome. Meu nome é... Rafael Augusto Silva. Farsante! A primeira coisa que vão perceber no documentário é que você é um mentiroso. Conta sem pagar no chão... Tem um cigarro aí? Tem? Não. Acho que vou buscar. Aonde você vai? Porque sexo está difícil! Droga, Jerônimo, serei obrigada a colocar isso no documentário. É isso, Mari-Mari-Mariana, está ramelando no sexo. Não estou ramelando, só não consigo “chegar lá” contigo. Está falando que o problema sou eu? Não estou falando que o problema é você, estou falando que talvez só consiga ter um orgasmo quando sentir segurança ao seu lado. Como assim? Não sei. É papo furado! Não é. Tem um cigarro aí? Desde quando você fuma? Desde agora. Para de besteira. Quero morar com você! Iremos morar juntos no Rio. Sim, em uma kitnet caríssima, porque tudo lá é caro. Mas você sabe, né?! Sei o quê? Sexo todo dia! Não vejo problema nisso. Se não vê problema nisso então por que não consegue relaxar na cama? É tudo uma questão de tempo. Por que não filma a gente transando? Primeiro porque nós não transamos direito, segundo porque a iluminação aqui é péssima, terceiro porque não quero pegar isso na internet. Como assim não transamos direito? Nós fazemos de tudo! Eu continuo sendo submissa no sexo. Você é quem domina, para de bobagem, e outra, ser submissa, às vezes, é excitante, diz ae! E não, não iria cair na internet. Ainda não perdi minha sanidade. Tem café aqui? Tem, mas ficou aguado. Desce de qualquer jeito! Ainda está filmando nossa conversa? Estou. Ok, então foca no meu rosto. Pronto. Mariana Godoy não consegue controlar suas emoções! Não consegue operar os dois lados do cérebro. Vive da emoção e não apresenta nenhuma estrutura de sentimentos. Mais essa agora... Além disso, ela está completamente apaixonada por mim! Não estou. Está! Você está apaixonado por mim? Eu gosto de você. Só isso? Só. Então não diga pra câmera que estou apaixonada por você. Está! Vai se foder! Por que você não se filma? Porque o documentário é sobre a sua vida. Mas você também faz parte da minha vida... Quem é você e o que fez com o cara que estou trepando? Trouxa... Mari? Oi? Lembra do filme da Nora Ephron que você deixou aqui da última vez? Sei, já assistiu? Ainda não, mas juro que verei essa semana, pode ser? Tá. Presta atenção na personagem da Meg Ryan! Por quê? Ela gosta de margaridas como eu. Isso foi uma indireta? Não. Eu gosto de flores! Pronto, isso foi uma indireta! Diretíssima! Sua prancha de surf é maior que você. Ela é do meu tamanho. Ela é gigante! Você que é um anão. Gosto de ser baixinha. Eu gosto de baixinhas! Agora é o momento que você me dá um selinho na frente da câmera? Isso é tão gay. Isso é romântico, amigo. Você vai colocar no Youtube? Nunca. Talvez eu escreva tudo e jogue no blog quando você desaparecer. Não vou sumir, pirada. (beijo) Gostaria de ver uma peça comigo? Qual? Anjo Negro do Nelson Rodrigues. Quando vai ser? Dia 20. Tenho praia dia 20. Você sabe que eu faço teatro, não é? Sei. Nossa relação só vai funcionar se você for ao teatro comigo. Nós temos muito tempo pela frente. E o presente? Só não compre meias. Como você é idiota, Jerônimo. Quer mais café, braveza? Quero que diga “adeus” pra câmera. Bebeu? Por quê? Porque sei que não ficaremos juntos por muito tempo. Desculpa, é que combinei de ir à praia com alguns amigos, prometo que depois compareço em quantas peças você quiser. Não fiquei bolada com isso, só estava refletindo e vi que não combinamos muito. Porra, você pensa demais, Mariana... E o Rio? Morar no Rio foi um plano nosso e já abandonei vários planos, posso abandonar esse também. Para de agir pela emoção, eu ainda quero casar na praia com você. Estou agindo pela razão! Diga adeus olhando pra câmera, quero me lembrar dessa despedida quando estiver longe. Achei que nos daríamos bem. Por favor, só peço isso. Uma vez você disse que se o sexo não dá certo nada mais vai dar certo. Esquece o que eu disse. Pronto, foquei no seu rosto. Você é singular, menina. Entra na vida da gente quando quer e sai quando quer. O foco está na boca.

(tempo)

Adeus, Mari...

Ainda sou 70% água?


Oi, nós nos conhecemos de algum lugar? Acho que conheço você daquela festa que deu até polícia. Não precisa falar nada, só fica me olhando! Olha porque o teu olhar engole minhas letras. Troço de pessoa. Troço de sujeito. Pessoa que faz eco! Sabe, acabei de sair de uma entrevista e mostrei o quanto sou engraçada! Minha sorte é lixo! É lixo que não se joga fora. Lixo que a gente guarda numa caixa de sapato e deixa no fundo do guarda-roupa acreditando que um dia servirá para alguma coisa. Sorte do latim sors. Fortuna que o sol secou do bueiro. Fortuna minha que o rato pisou. Por favor, tem algum cigarro aí? Veja bem, você não é o único rapaz que fuma vinte cigarros por dia e eu não sou a única pessoa no mundo viciada em analgésicos. Acabei de sair de uma entrevista e mostrei o quanto sou engraçada. Já falei? Perdão. É que minha avó está rezando por mim porque o Deus dela é mais forte que o meu. Minha avó é poeta, tá sabendo?! Nunca usou um batom vermelho, mas foi uma boa mulher! Tinha as pernas da roça, gingado baiano e sotaque italiano. Minha avó soube ser mãe. Sem exclamação. Regou seis flores e se dissolveu na juventude de pouquinho em pouquinho por onde passou. Nunca recebeu um beijo de cinema, aquele que lambuza toda a boca, com ardor. Mas minha avó é poeta, tá sabendo?! Há uma semana descobri que não gosto de bruxas. Sim, com certeza minha mãe ficará decepcionada, mas há um pouco de feijoada no micro-ondas. Eu sou do tipo de pessoa que enlouquece por estar envelhecendo. Será que ainda sou 70% água? Só não gosto de mar. Escorpiana desde 96. Lua em Câncer. É, é entranho um signo de Água não gostar de mar, mas água é o elemento que nunca sossega e isso me assusta. Não acalma, não pausa, não finda. Fim é morrer. Hoje você morre afogado, queimado, atropelado. Pelo carro, pela moto, pelo ônibus. Pelo desconhecido, pela fome e pela sede. Você morre de velhice, de tristeza, de doença. Você não tem medo de morrer e morre. Medo mesmo é não morrer, não foder, não crer em nada. Claro que acredito em reencarnação. A gente reencarna todo dia: no acordar, na fissura do outro, na hora de tocar o céu, na hora de tocar o inferno, no orgasmo vespertino que acontece no banheiro trancado, no amar o som da própria voz, no beijar o cubo de gelo. A gente reencarna todo dia, não é? Você me falou isso naquela festa que deu até polícia. Morte: deixar a carne. Foi um choque, eu não sabia que ele estava deprimido. Se soubesse, tentaria ajudar. Foi assassinado. Assassinado pelo universo, por mim, por uma dor na nuca, pela falta de solidão compartilhada com carinho e por uma fada maldosa. Sem pudor. A gente mata aqui dentro e vai deixando de querer a pessoa no nosso colinho. Faz eco dentro de mim. Não me mata não, dono. Tolice minha achar que está interessado na bobagem que sai da minha boca, mas vou em frente! Eu não sou louca, só gosto de azul. Também não sou suicida, gosto da vida que menstrua. Estou falando e falando e falando sem parar, porque hoje fui entrevistada e mostrei o quanto sou engraçada! O homem que me entrevistou quis olhar minha elasticidade. A elasticidade da minha pele. A minha circulação sanguínea. Ele tocou na minha literatura sadia e nos meus movimentos sujos. Na minha célula-tronco, no meu jeito de ver o mundo e no meu fruto. Mariana significa “a purinha”, “senhora soberana”. Asneira! Sou azeda, ferida na perna, suor alheio de Copacabana e pinta entre os seios. Olha, passa lá em casa, não custa nada desejar. Cotidiano é revelação e ser mulher é um saco. Questiono. Certeza não serve pra nada.

A vida não pode ser só isso


Em memória dos que partiram.
E foram partidos pela Arte.
Como nós.

Roda de samba no portão de casa. Martinho da Vila, Cartola, Adoniran Barbosa. Almoçar no Sesc da vila com o meu nome ao lado da Ariana Lackshmi. Prato: arroz, feijão, cuscuz e frango. Um refrigerante para nós duas? Aprender a escrever Lackshmi sem olhar nos contatos. Vamos sentar naquela mesa para apreciar a piscina. Recarregar Bilhete Único. Desenvolver um olhar atento para a arte pós-moderna. Terça: Ir ao inglês. Curso de francês? Sozinha. Estudar. Transar com alguém mais inteligente que eu. Comprar creme para depilação. Perder um grande amigo. Jabuticaba. O que vestir para ir à Ópera? Encontrar Ariana, Rafael, Daniel e Pedro nas catracas. Ela está linda! Sentar no lugar mais barato. Procurar meu fone de ouvido. Lembrar que o fone ficou com o amigo perdido. Comprar outro. Chorar. Pensar em suicídio. Cair da escada. Esquecer Deus. Acreditar. Abandonar o catolicismo. Lasanha de espinafre. Atriz de novela ou teatro? Teatro! Formar um novo-grande-amigo. Trancar a faculdade. Lágrimas no ombro da Ariana Lackshmi. Ela diz que fui a mulher que mais amou. Amiga. Poesia é a coisa mais importante do mundo. Deixar um bom professor. Biofobia: medo da vida. Chorar me faz ter a certeza que ainda sei sentir. Sinto muito. Dormir com dois travesseiros. Unhas. Arrancar o dente do juízo. Há Paris para nós. E aí, gostosa?! Filme que me destrói. Cortar o cabelo ou deixar crescer? Exposição Feito Por Brasileiros. Bienal. Falar para o rapaz de óculos que eu gosto dele. Admitir. Eu nunca matei uma galinha. Seu rosto está vermelho? Se não estiver não está com vergonha. Atualizar o blog. Tomar calmante natural. Encontrar morangos escondidos na geladeira. Abelha. Alergia. Além de estar limpando ainda tenho que assobiar? Comer o bolo de chocolate que a Barbara ficou de levar no próximo ensaio. MERDA! Teatro. É um curso profissionalizante? Alma! Elogiar bolo. Preparar alguma cena. Cu é lindo – já escreveu Adélia Prado. Gozar. Ir à praia. Conhecer o Felipe. Se eu fumasse estaria fumando agora. Não ser pessimista. Pessoas. Relacionamentos que só aconteceram aqui dentro. Do lado esquerdo. Casais que vejo na rua. Ausência do paterno. É coisa de passarinho. Saudade do seu abraço. Ligar o ventilador. Completar 18 anos. 18 anos sem Renato Russo. Estudar. Impressionar na entrevista. Tráfico de poemas escritos em papel higiênico. Provas. Prazer. Sexo. Utilizar o wi-fi da vizinha só para falar contigo. Vestibular. Emagrecer na semana que vem. Pintar o quarto de vinho-azul-pérola. O azul é uma cor fria que alivia a ansiedade e ajuda a controlar os ataques de atração sexual obsessiva. Não é a cor mais quente. Andar de bicicleta. Ir ao parque com o garoto que eu gosto. Sentir falta do nosso café da manhã no boteco da esquina. Perdão por te abandonar como naquele filme do Noah Baumbach. Dói o ventrículo direito. Viver de Arte ou não viver. Savoir-vivre. Suicídio. Internação voluntária. Escrever que amo meu irmão com tinta preta na parede antes de partir. Mastigar sabonete. Quatro e quarenta e oito. Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares. Minha mente funciona assim:

a o s
        p e d a ç o s .
 n a 
q u e b r a .

Felicidade é sofrer através do sensível. Isso. Você foi a mulher que eu mais amei em toda a minha vida.