É tudo síndrome. Síndrome
do terceiro ano. Síndrome da primeira entrevista. Síndrome do primeiro namoro.
Síndrome da primeira relação sexual. A simplicidade confunde, os meus erros
confundem e a correria do dia a dia transa comigo sem eu saber. Não precisa
necessariamente arrumar o lençol, se depilar, passar perfume no cangote ou
comprar uma lingerie vermelha para saber o que é sexo. A confusão nos metrôs, a
poluição das fábricas e o cigarro daquele homem moreno, dos cabelos enrolados e
ombros largos no ponto de ônibus abrem suas pernas sem nem ao menos pedir
permissão.
Já são seis horas. Deixe-me
levantar da cama, pegar minha lancheira da Barbie, ir à escola, comer meu
lanchinho pra ficar fortinha, suar frio por saber que semana que vem tem ditado
com palavras que começam com J e G. Isso tudo é difícil pra mim. Jardim é mesmo
com J? Quem me garante? Ser professora é fácil, quero ver dar aula.
Já são sei horas. Estou
no ônibus, sentada onde não posso sentar, minha mochila pesa, minha coluna dói,
meu iPhone vibra, meu Facebook ativa, meu namorado chora de saudade. Saudade de
mim, saudade de quem eu era, de quem eu posso ser, de quem eu nunca serei. Quase
não o vejo, mal nos tocamos, mal nos olhamos, mal nos beijamos. Falta tempo,
tempo de mim, tempo para brincar novamente na minha casinha da Barbie, tempo para jogar The Sims, tempo
para comer um Kinder Ovo. Tempo e dinheiro. Tempo é dinheiro. Dinheiro é falta
de tempo. Quero me enfiar, enfiar em mim mesma, no meu próprio buraco, dormir
com travesseiro entre as pernas, molhar as calças e esquecer os problemas que
já não consigo esquecer.
Já são sei horas. Estou
trabalhando feito vadia. Cansando. Sento na cadeira do diretor. Ele põe as mãos
em minha cintura, seu sovaco cheira mal, sua barba me dá nojo. Tudo é diferente
no meu mundo. No mundo dos adultos. É repugnante. Mas não tenho culpa, sou do
teatro, da fotografia, da passarela, da arte. Preciso sobreviver. Preciso
colocar comida dentro do meu minúsculo apartamento financiado em sei lá quantas
vezes. Quero minha avó. Estou no Cambuci. Amo tanto São Paulo que sinto falta
de Goiânia. Meu namorado já não passa de lembranças. Não o vejo há cinco anos e
meio. Perguntou-me certa vez se eu o amava mais do que pizza. Fiquei pensando
em qual sabor e massa ele se referia. Nosso mês era março e talvez seja por
isso que sou louca por abril. Quero sexo. Não me censure. Quero viver sem essa estranheza. É curioso ver pessoas correndo em escadas rolantes. Carros parados entre carros parados
com motoristas que mal tomaram café da manhã. São tantas obrigações, tantas dívidas. Tenho pânico e pavor e temor e susto e medo. De ser assaltada. De sequestros relâmpagos.
De meninos do asfalto que sustentam vícios. Maconha. Erva medicinal. Faz bem pra
quem não tem neurônio. Não sou disso. Papai me ensinou o certo e o errado. O
errado é saboroso. Eu sou saborosa e ninguém vê isso.
Já são seis horas. Estou
no velório. Amo flores e odeio o cheiro delas. As pessoas choram. Mamãe desaba
e a vizinha aproveita para tomar o chazinho de baunilha que não tem em sua
casa. Falta grana pra todo mundo. O caixão é levado. Carregado pelo meu ex-namorado
a quem eu amo menos que pizza de calabresa. Estou lá dentro. Perdida dentro de
mim mesma. Saltar de paraquedas é para os medrosos, os corajosos se desafiam,
procuram entender o que acontece dentro de suas próprias cabeças. Cérebro
parece com cotovelo. Cotovelos são bonitos.
Já são sei horas e meia.
Desisto. Acabei comigo. O paletó de madeira está fazendo de mim alguém melhor,
alguém especial, alguém que só será lembrada nos próximos dois meses. Depois
esquecem.
Já são seis horas e cinquenta minutos. Voltei a ser criança. Estou comendo chocolate
na minha casa azul. Vou para a escolinha, pego minha lancheira do Arcanjo
Gabriel e vou cantando a musiquinha que São Pedro me ensinou. Tem ditado lá.
Com J e G. Jardim é com J mesmo. Tenho certeza disso. Agora tenho. Mais do que
nunca.



















