Hoje o céu vai cair


Elisa nos apresentou um dia antes do seu aniversário. Eu lembro que chovia e chovia. Frívolo, sentado quieto, com uma camisa azul cheia de andorinhas e uma calça justinha na cor mostarda. Sua cor favorita vivia na minha geladeira. E falando assim, descontraída que só, até parece poesia. Excêntrico! Limpinho! Tênis desgastado e cadarços da cor do seu cabelo. Vermelho sangue! Ele olhava de canto e sorria. Às vezes, levantava e ajudava na organização da festa que há pouco começaria na casa da Elisa. E eu espiava, de longe, ao lado da estante com um copo de café na mão o homem mais charmoso que eu já havia visto em São Paulo.

Foi simples, Ana. Depois de alguns minutos ele veio e ficou ali parado na minha frente como uma estátua, sem dizer nada, os lábios grudados e um olhar duvidoso. Errado, leve, dramático e artista. Ele era artista, sabia? Fazia teatro, pintava e até tocava clarinete. Gargalhei sem saber o porquê e logo ele começou a falar. Falou tanto, tanto, que até fiquei cansada de o ouvir. Tudo me atraía naquele homem! Suas mãos, os cachos e o bigodinho mal distribuído mais bonito da cidade! Sua visão de mundo, o modo como levava a vida, era tudo tão simples, que aos poucos fui me cegando. 

Você quer saber o porquê eu fui embora de casa, mas eu não sei explicar, Ana. Sei que pisquei e já estava naquele apartamento pequeno, naquela cama grande e no meu novo lar. Minhas roupas empilhadas no guarda-roupa e aquele sutiã vermelho que ganhei de você vivia molhado no banheiro. Geleia de morango, que sempre foi minha favorita, ficava escondidinha no fundo do armário. Mas ele sempre achava e acabava com tudo. Coisa de artista! Acabar com tudo, não deixar nada, nem pra cutucar, lamber, adoçar o céu da boca. Era difícil de lidar, mas eu lidava. E ele, coitado, ele era triste. Não conseguia lidar nem consigo mesmo, mas sabia viver. Diferente de mim.

Veja só! Estou atrasada! Comentei que arranjei um bom emprego graças à ajuda do papai? Depois explico melhor, pois agora não tenho tempo. Você sabe que hoje a louça é por sua conta, né? Vê se encontra uns doces aí na minha bolsa. Ganhei da Rose e esqueci de comer. Pode pegar ou vai estragar. Se for à casa do Fabinho, penteia esse cabelo e leva as meias que ele esqueceu aqui em casa. Só não deixa o amor te comer de quatro.

[...]

Hoje o céu vai cair, então se bater muito forte, vai pra debaixo da mesa e chora.

Hospício


redonda acende no céu lindo
e espia cuidadosamente,
esta solidão longe do findo
que tornou-se confidente,

ao cair busco pelo estável
escondido, finamente rindo
eu um ser tão abalável
vou me autodestruindo

mas de verdadeira mãe, há uma brisa
que limpa a sujeira da áurea,
o cérebro ainda sensato
pede um pouco mais de calma

para o coração fragilizado
que já não escreve pelos cantos
sem acolhimento e sem amor,
no hospício fico aos prantos.